Como havia ido dormir cedo na noite anterior, acordei fácil com o despertador tocando pontualmente às 7:00, levantei e fui direto para um bom banho já que um longo e frio dia me esperava. Eu já havia deixado os alforjes prontos na noite anterior, então não havia com o que perder tempo, coloquei a roupa e desci para o último café da manhã em Bariloche. Chegando no restaurante do hotel, lá estava a Sra. Ana me esperando com um café da manhã completo e como eu era o único hóspede, tinha toda a atenção voltada para mim. Após me servir de croissants quentinhos, geleias e um café delicioso, ela sentou ao meu lado e ficamos conversando, logo em seguida o Sr, Erick se juntou a nós e ficamos falando sobre a aventura que eu vinha realizando e sobre as que eu ainda pretendia realizar, aproveitei para ouvir um pouco mais sobre a história da cidade, ver algumas fotos e tudo isso enquanto eu olhava a chuva e gelo do lado de fora da janela e imaginava o que estaria por vir nesse dia.
Após o café, peguei os alforjes e mochila e fui para a garagem preparar a bandida, tudo amarrado e encapado, voltei à recepção para me despedir e devolver o controle da garagem, não poderia ir embora sem pedir para tirar uma foto e prometer que quando eu voltasse à cidade, certamente me hospedaria lá novamente.
Saí do hotel por volta das 9:00, não havia a menor possibilidade de sair antes já que ainda estava escuro e havia muito gelo nas ruas, imaginava como seria na estrada. Saindo da cidade, lembrei de um pequeno detalhe, eu estava sem pesos argentinos pois havia usado todo o dinheiro para o pagamento do hotel! Eu já estava a uns 15Km do centro da cidade e quando me preparava para dar a volta, vejo uma placa indicando a direção para o Aeroporto Internacional de Bariloche e pensei: Já que o aeroporto é caminho para onde eu estava indo, para que voltar até a cidade? Então segui destino ao aeroporto, após 20 minutos me dei conta de que essa havia sido uma má escolha já que o aeroporto ficava bem mais longe do que eu imaginava e a estrada para lá estava terrível, quero dizer, pela quantidade de gelo no asfalto, eu não podia passar de 50Km/h. Chegando ao aeroporto, fui direto à casa de câmbio e quando olhei a cotação do Real quase tive um ataque! Eles me pagavam praticamente 1:1 com o peso argentino, apesar de todo o gasto de combustível e tempo para voltar à cidade, não havia a menor possibilidade de que eu trocasse dinheiro alí, sendo assim, lá fui eu fazer todo o caminho de volta até a cidade, podem imaginar a minha felicidade né?
Troquei dinheiro, abasteci novamente e lá vamos nós destino a Villa La Angustura, até o momento, esse tinha sido o trecho onde mais senti frio durante a viagem, apesar de estar totalmente desconfiado com a polícia argentina (motivos não me faltaram), quando encontrei um posto policial, parei e aproveitei para entrar e me aquecer um pouco. Após alguns minutos de conversa com os policias, fiquei totalmente surpreso sobre a diferença do pessoal do interior, me senti tão à vontade que contei o ocorrido com as minhas experiências anteriores com a polícia da província de Buenos Aires, eles ficaram envergonhados e me pediram desculpas por seus colegas e disseram que infelizmente isso é uma prática comum daqueles. Na saída aproveitei para pedir que me tirassem uma foto com o cartaz de bem vindos a Villa La Angostura de fundo.
Chegando na cidade, aproveitei para dar um passeio e conhecer um pouco mais sobre esse lugar tão comentado mas sinceramente não sei se andei pelos lugares errados ou se é tudo conversa de quem não conhece a cidade mas sinceramente não encontrei nada de mais. Como eu estava com a viagem atrasada devido ao tempo que perdi na saída de Bariloche, parei em um posto YPF, abasteci e segui o GPS rumo a San Martin de los Andes, mal sabia eu o que iria encontrar pela frente, mais de 120Km de rípio! Para quem não conhece, rípio é como se fosse um cascalho porém de pedras arredondadas que fazem o pneu deslizar que é uma maravilha, isso somado ao fato de que chovia e eu estava em uma estrada sem pavimento e com pneus de asfalto, tornaram esse trajeto que é composto por lindas paisagens em um inferno. Passado esse trecho, voltei para o asfalto e logo em seguida cheguei a San Martin de los Andes, cidadezinha bem aconchegante onde dei uma parada para tirar algumas fotos e fumar um cigarro.
Decidi abastecer em Junín de los Andes que ficava bem próximo dali e pelo que eu pude consultar pelo GPS, era a última cidade onde eu encontraria abastecimento, era também o ponto da viagem onde eu entraria na Ruta 40, estrada famosa entre os aventureiros já que esta liga os Andes até o deserto de Atacama, uma espécie de Rota 66 da Argentina. Conforme minha programação, abasteci em Junin, confirmei que não haveria mais abastecimento por pelo menos 200Km até Zapala e peguei a estrada rumo a essa cidade, já eram por volta das 17:00 e essa havia sido a pior decisão que eu havia tomado nesta viagem, deveria ter ficado para dormir em Junin. Apesar de eu ter que manter uma velocidade de no máximo 120Km/h para economizar combustível, a viagem estava muito agradável, lindas paisagens, asfalto perfeito, belas curvas e tudo correndo maravilhosamente bem, assim foi por cerca de 50Km até que comecei a notar um pouco de neblina e com ela, a temperatura que já estava bastante baixa, começou a incomodar bastante, a partir desse momento, a cada quilômetro rodado a neblina se tornava mais densa, com essa condição climática, pude comprovar o que eu já tinha praticamente certeza, o capacete Nuvo é um lixo no quesito anti-embaçamento. Assim rodei por mais ou menos uns 80Km e quando achei que a situação não poderia ficar pior, começa uma chuva torrencial! Agora imaginem, o sol que já estava muito fraco havia se posto, neblina tão densa que não me permitia ver mais de 5 metros à frente, uma chuva torrencial, frio de congelar qualquer um e a preocupação com o consumo da moto, visto que eu havia planejado chegar à Zapala no limite do combustível, como eu estava rodando a velocidades de no máximo 60Km/h a autonomia ficou seriamente comprometida. Fiquei apavorado quando o odômetro marcou 210Km, a indicação do final da reserva começou a piscar (isso indica que restam menos de 1,5 litros de combustível no tanque), o que se traduz em mais ou menos 20Km disponíveis para rodar, não passava nem alma penada por aquela estrada, eu já estava em um nível onde não conseguia nem ao menos mexer os dedos de tanto frio e para meu desespero, até esse momento eu não conseguia visualizar sequer alguma iluminação, cartaz ou qualquer outra indicação de proximidade da cidade. A neblina estava tão forte que eu estava na estrada e subitamente encontrei a avenida principal da cidade à minha frente, somente nesse momento pude ver a iluminação dos postes da avenida, cheguei a gritar “uhuuuuuuu!” da minha felicidade por ter conseguido chegar com o combustível , parei a bandida em baixo de uma parada de ônibus, desliguei e tive que agarrar o cano de escape sem as luvas para aquecer as mãos pois não conseguia mexer os dedos, minha mão estava com uma cor azul arroxeada, peguei o GPS para encontrar o posto de combustível mais próximo, a indicação era de que ficava a 2Km de onde eu estava, guardei o GPS e rumei para lá. Chegando no posto enchi o tanque, que guardou 18,7 litros de gasolina aditivada, o que significa que eu tinha apenas 300ml de combustível disponível, obrigado senhor! Como eu estava com fome e com um frio que não me deixava parar de tremer, decidi entrar na loja de conveniência onde comi uma torrada e bebi um chocolate quente, aproveitei o momento de pagar para perguntar a respeito de hotéis na cidade e fui informado de que a cidade contava com 3 hotéis, um hotel cassino de luxo e dois hotéis razoáveis, sendo que um foi fortemente recomendado. Subi na bandida e rumei para o hotel, quando eu havia rodado mais ou menos 1Km do posto, me dei conta de que havia esquecido o aparelho ortodôntico na loja de conveniências, sim, mais uma vez esqueci o maldito aparelho! Voltei ao posto e para não perder o costume, tive de revirar o lixo para encontra-lo. Rumei novamente para o hotel indicado, chegando lá, fui informado de que não haviam vagas disponíveis, então me mostraram o outro hotel que ficava a uma quadra de distância dali, não conseguir um hotel para passar a noite era só o que me faltava nesse dia infernal. Cheguei ao hotel e haviam vagas disponíveis, tive que pagar a diária em dinheiro e adiantado, acho que ficaram preocupados de eu não ter dinheiro devido ao meu estado, e então fui empurrando a bandida até uma garagem podre a 2 quadras de distância, essa era a garagem do hotel. De volta ao hotel, peguei minhas coisas que havia deixado na recepção, peguei a chave e fui direto para o quarto, quando abri a porta, esta bateu no armário que ficava atrás e quando liguei a luz, quase tive um ataque, o quarto todo era do tamanho de um banheiro, cabia a cama de solteiro anão no canto da parede, na frente o armário que batia na porta e do outro lado, a 30cm ficava a parede, por onde a pessoa se espremia para chegar ao banheiro, que tinha o mesmo tamanho do quarto. Tirei toda a roupa molhada e fui direto para um banho quente, na verdade isso era o que eu queria, mas o máximo que consegui foi uma água levemente morna. Fui para a cama, me cobri e ao contrário do frio que eu estava sentindo antes, comecei a sentir muito calor, quando eu olho para a parede que ficava a 30cm da cama, me dei conta de que ali havia um aquecedor do tipo radiador praticamente do tamanho da cama! O calor que emanava daquilo era insuportável e apesar do frio que fazia lá fora, fui obrigado a abrir a janela, caso não fizesse isso era possível que eu pegasse um bronze durante a noite! Tudo que eu queria era que esse dia terminasse de uma vez, então apaguei a luz, fechei os olhos e finalmente, sono!
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