sábado, 5 de junho de 2010

4º dia – Mar del Plata / Bahía Blanca

Como eu estava a dois dias sem dormir e extremamente cansado, acabei nem ouvindo o despertador, que estava programado para 8:00, tocar e acordei às 9:50, pulei da cama e saí correndo do quarto já que o café da manhã do hotel somente era servido até às 10:00. Deveria ter ficado na cama, já não havia mais leite e o café era uma porcaria, além disso, não havia nada para comer além de alguns croissants duros. Depois disso, voltei para o quarto para tomar um banho, colocar a “armadura”, dar uma volta rápida pela cidade e pegar a estrada novamente.

Durante o passeio, em uma parada para admirar a paisagem, notei que havia um rapaz e uma garota empurrando uma camionete que não fazia a menor menção de querer pegar, como estou sendo tão bem tratado por este povo, não pensei duas vezes e resolvi ajudar, fui até lá e empurrei o carro até pegar, para quem conhece a expressão, quase coloquei os bofes para fora! Após o passeio rápido pela cidade, LINDA diga-se de passagem, resolvi passar na loja do Diego e seu Francisco para me despedir e agradecer mais uma vez por toda a ajuda prestada, para a minha surpresa a ajuda não havia parado por aí, eles ligaram para a filial de Bahía Blanca, cidade para onde eu estava me dirigindo e pediram que o responsável pela filial, que também se chamava Diego, ligasse para todas as lojas de pneus de motos na cidade e conseguisse o pneu para que eu pudesse instalar no outro dia cedo pela manhã. Esse pessoal é mesmo sensacional! Após uma boa conversa com os dois, pedi para tirar uma foto com eles para levar de recordação dessa gente maravilhosa e saí de Mar del Plata por volta das 13:00.

Já saindo de Mar del Plata notei a grande diferença no tráfego e condições da rodovia que deixou de ser uma autopista com 3 pistas de rodagem para cada sentido por uma estrada simples de mão dupla e com asfalto bem deteriorado devido ao grande tráfego de caminhões. Rodei por volta de 140Km e cheguei a uma pequena cidade portuária chamada Queuén, onde parei para abastecer e fazer um lanche. Saindo da cidade, em torno de uns 15Km, fui parado novamente pela polícia e adivinhem, mais uma coima! Me pediram todos os documentos, quando viram que estava tudo OK, me perguntaram se eu tinha o BTV, é uma inspeção veicular realizada anualmente nos veículos argentinos, obviamente não possuo tal verificação uma vez que isso somente se aplica a veículos argentinos, rebati. Vendo que não estavam tratando com uma pessoa sem conhecimento, decidiram uma nova abordagem, perguntaram se eu não estava carregando alguma coisa que eles deveriam saber, perguntei como assim? Então perguntaram se eu não estava portando alguma arma ou maconha, respondi que obviamente não! Então começaram a revista, primeiro meu corpo, depois me fizeram tirar toda a bagagem dos alforges e mochila, então pegaram meus dois pacotes de cigarro que trouxe para a viagem e perguntaram se eu tinha nota fiscal daquilo, obviamente não tinha! Então disseram que isso configurava contrabando e que teriam que me autuar e me levar até a delegacia na presença de um juiz. Dei risada por dentro pois sei que isso era um absurdo, então respondi que ele estava ali para fazer cumprir a lei e que eu estava de visita a seu país para cumprí-la, logo, se esse era o procedimento para tal infração, que fôssemos então para a delegacia e que ele fizesse o que deveria fazer. Vendo que ele não conseguiria nada comigo, me deixou mais um tempo “de molho” para supostamente pensar na decisão que eu estava tomando, resolvi fumar um cigarro e olhar a paisagem. Depois de um tempo, veio e perguntou novamente qual era a minha decisão, respondi novamente que ele deveria fazer o que a lei mandava e que eu acataria as consequências. Vendo que não teria solução, me devolveu os pacotes de cigarros e já que ele estava “me dando uma força”, pediu que eu deixasse alguma coisa, leia-se dinheiro. Coloquei a mão no bolso e tinha 3 moedas de $1,00, dei a ele e disse que era tudo que eu tinha, ele falou que aquele valor era um absurdo e que eu deveria dar mais alguma coisa, como eu havia comprado alguns chocolates no free-shop do Buquebus, ofereci a eles, pegaram e me desejaram uma boa viagem. Incrível, estão cada vez mais caras de pau!

Com todos essa atrasos durante o dia, apertei o ritmo para não chegar muito tarde à Bahía Blanca já que pelo menos da noite era certo que eu não escaparia, depois de uns 150Km parei na cidade de Tres Arroyos para reabastecer, como não havia nenhum posto à beira da estrada, entrei na cidade. Uma cidadezinha bem simpática de interior onde chamei a atenção por onde passei , parei no posto e fui motivo de vários olhares e comentários, como não tenho dificuldades em fazer novas amizades, 10 minutos depois estava tomando um café, comendo uns croissants e batendo papo com o pessoal (que habilidade que eu tenho de me amarrar nos lugares que paro!). Ficar conversando e trocando experiências é uma coisa que me fascina e apesar de estar bem atrasado, fiquei por volta de uma hora nesse posto. Quando eu estava saindo da cidade passei por um hotel bem simpático e confesso que fiquei tentado a passar a noite alí mas isso iria atrasar totalmente meu cronograma, afinal, eu ainda deveria trocar o pneu da Bandida em Bahía Blanca e pensava fazer isso bem cedo.

Rodei mais uns 150Km e cheguei a uma cidade chamada Comandante Dorrego, com esse nome na entrada da cidade, só não parei para tirar uma foto e fazer uma piada pois estava realmente atrasado. Parei em um posto YPF, tenho preferência por esses postos pois eles contam com uma loja de conveniência chamada Full e as mesmas possuem Wi-Fi. Já eram quase 21:00 e as únicas informações que eu tinha a respeito de Bahía Blanca era que se tratava de uma cidade portuária grande, com nível de violência elevado e a pior parte da cidade era a entrada pois era preciso atravessar uma vila, ou seja, eu tinha todos os motivos para não ir até lá a essa hora, pelo menos não sem um endereço certo, sob essas circunstâncias, ficar passeando na cidade não era uma sábia decisão. Então entrei na loja de conveniências com meu notebook e comecei a procurar hotéis em Bahía Blanca, ligando para alguns perguntando sobre tarifas e disponibilidade enquanto tomava um café. Encontrei um que parecia bom e com um preço justo e fiz a reserva. Quando estou saindo da loja, o frentista do posto me sugeriu ficar na cidade em que eu me encontrava no momento, Comandante Dorrego, e após alguns minutos de conversa ele me convenceu, entrei na cidade decidido a ficar por lá, porém após passar pelos únicos 3 hotéis da cidade cheguei a conclusão de que devido ao preço das diárias, valeria a pena seguir com o plano original e ir até Bahía Blanca.

Quando estou chegando à entrada da cidade, já eram por volta das 23:30, fiquei bem confuso já que não existe nenhuma placa indicando o centro da cidade e existem duas entradas, uma para o porto e outra para o centro, eu estava procurando um lugar seguro para parar e dar uma olhada no GPS e ao mesmo tempo tomando cuidado com a quantidade de caminhões que estavam estacionados sobre a rodovia com as luzes apagadas aguardando a sua vez na fila que nesse momento eu não sabia para onde levava, enquanto andava, notei um moto estacionada no acostamento com uma pessoa em cima falando no celular, conforme me aproximava, notei que não era uma moto pequena e quando cheguei ao lado percebi que se tratava de uma CBR 1000RR modelo novo, pensei rápido nas possibilidades, ou o cara havia roubado a moto, ou se tratava de um motociclista. Pensei, se o cara estivesse roubando a moto, não estaria parado falando no celular, então parei ao lado e aguardei enquanto a chamada não era terminada, após isso nos apresentamos e seu nome era Guillermo, ele estava ligando para a polícia para reclamar sobre a presença dos caminhões sem iluminação sobre a rodovia. Expliquei que estava chegando na cidade e que estava indo para o Hotel Muñiz, aproveitei e perguntei se ele tinha algum outro hotel mais econômico para indicar já que esse cobrava $135,00 a diária. Prontamente ele disse que me levaria até alguns hotéis onde eu poderia consultar valores, após passar por 2 hotéis com o mesmo valor, decidi ir para o hotel em que eu havia feito a reserva, ele me guiou até lá e ficamos conversando na frente do hotel. Nesse meio tempo encostou um Honda Civic na frente do hotel e desceu um rapaz perguntando quem era o dono da moto azul, respondi que era eu, então ele perguntou, tu é o Francisco? Incrível a coincidência! Esse rapaz era o Diego, meu contato indicado pelo Diego de Mar del Plata e seu Francisco! Ele me disse que me aguardava pela loja na parte da manhã, nos despedimos e eu segui conversando mais um pouco com o Guillermo. Quando olhei o relógio e vi que já era passado da 1:00, disse que tinha que descansar, trocamos e-mails, nos despedimos e eu entrei no hotel. Preenchi os registros, guardei a bandida na garagem e boa noite ou bom dia!

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