Como fazer o mesmo caminho mais de uma vez na mesma viagem se torna monótono e eu já havia decido que voltaria ao Uruguay por Paysandú, resolvi cruzar para a Argentina via travessia do Río de la Plata pela empresa Buquebus, para isso eu deveria estar na cidade de Colônia del Sacramento, local de partida do Buque (ferrie boat) mais tardar às 4:00. Para isso saí de Montevideo a 1:00 e não fiz nenhuma parada até Colonia.
Chegando no terminal de embarque, fui comprar a passagem para mim e para a Bandida e qual não foi a minha surpresa quando me informaram o valor, 1800,00 pesos uruguaios (R$180,00). Eu havia pesquisado valores e tinha sido informado que o valor era de 690,00, esqueceram de me informar o valor do transporte da moto :/
Passado o susto e a preocupação de deixar a filhota sozinha na área de carga do Buque, foi só alegria, o barco parece um navio de cruzeiro e possui até free-shop a bordo.


Chegando em Buenos Aires, primeiro problema do dia, a casa de câmbio do terminal Buquebus não trocava reais, somente pesos uruguaios, argentinos e dólares e as casas de câmbio da cidade só abriam a partir das 10:00. Eu não poderia sair de Buenos Aires sem pesos argentinos pois passaria por pedágios, então depois de pensar muito como esse atraso impactaria a minha chegada em Mar del Plata, lembrei que eu ainda tinha 100,00 pesos uruguaios, mas, sempre existe um porém, a casa de câmbio trocava no mínimo 300,00. Depois daquela choradeira para a mulher da casa de câmbio, saí do terminal com 17,00 pesos argentinos, o equivalente a R$8,50.


O tanque estava na reserva e no primeiro e maior posto de Buenos Aires que fui, estavam sem gasolina (inacreditável). Segui as orientações do GPS para chegar a Mar del Plata pensando em parar no primeiro posto que encontrasse, como já havia rodado mais de 10Km pela autopista e nada de posto, quando passei no pedágio, deixei $1,00 de tarifa e perguntei onde havia algum próximo, 5Km foi a resposta. Cheguei no posto, abasteci e quando tirava a moto da bomba para tomar um café e seguir viagem, um argentino chamado Guillermo que estava abastecendo seu carro começou a bater papo comigo, perguntando de onde eu vinha e para onde eu iria, confesso que fiquei bem desconfiado, conheço a fama de Buenos Aires e procurei não dar muitos detalhes sobre o meu roteiro, mas essa desconfiança foi se desfazendo à medida que eu conversava com esse cara, ele estava na correria pois estava trabalhando e mesmo assim, puxou seu mapa e começou a me dar alternativas sobre como chegar a Mar del Plata sem pagar pedágio já que eu estava com muito pouco dinheiro, por fim ele me deu o nome e o endereço de um cliente dele em Mar del Plata (ele é revendedor dos Pneus Toyo) e disse que eu os procurasse caso precisasse de alguma informação ou dica sobre a cidade, agradeci muito e ele foi embora enquanto eu entrava para tomar um café.
Depois do café, segui viagem e apesar do Guillermo ter parecido ser um cara de confiança, achei melhor não arriscar o caminho alternativo recomendado por ele e segui pela autopista nº2 que me levaria direto a Mar del Plata, deixei mais $1,00 em outra praça de pedágio e recebi a boa notícia de que a partir dali eu não pagaria mais pedágios, todas as rodovias nacionais não cobram pedágios de motos. Tudo indo otimamente bem até que após rodar por volta de 100Km sou parado pela Policia de Seguridad Vial, o que equivale a nossa Polícia Rodoviária, eu estava preparado psicologicamente para as coimas, termo argentino para a cobrança de propinas, e estava com tudo em dia na moto e documentação, então tudo bem. Pórem, sim, sempre tem um, após revisarem toda a documentação, me perguntaram onde estava o meu colete refletivo, segundo o policial, equipamento obrigatório para rodagem de motos por vias argentinas, obviamente não tinha tal equipamento e após 5 minutos de ameaças de cobrança de uma multa no valor de $2.500,00, consegui resolver o assunto com os $15,00 que me restavam, fiquei sem nenhum peso argentino mas saí feliz por ter resolvido o assunto com pouco dinheiro e com a promessa de comprar o tal colete na cidade que eu estava passando chamada Chascamuz. No caminho para a cidade encontrei um posto Shell com McDonalds, como a fome estava batendo e ainda me restavam praticamente 400Km, resolvi parar para nos abastecer, a Bandida com gasolina e eu com um Big Tasty. Enquanto estou comendo se aproxima um senhor de aproximadamente 60 anos chamado Jorge e começa a me perguntar sobre a viagem, ele reparou na moto carregada e com placa estrangeira. Mais uma vez fiquei desconfiado mas depois de ele se apresentar como motociclista a mais de 30 anos e dizendo ter rodado toda a América Latina, abri a guarda e resolvi ouvir algumas histórias e dicas de roteiro para fazer pela Argentina e Chile, durante a conversa comentei o ocorrido com a polícia e recebi a grande notícia, esse colete é obrigatório somente na Capital Federal e para motoqueiros de tele-entrega, ou seja, fui enganado! Conversamos tranquilamente por mais de uma hora (os argentinos adoram bater papo), nos despedimos e segui viagem.

Depois de rodar mais de 70Km senti que estava faltando alguma... Meu aparelho dos dentes! Havia esquecido o maldito na bandeja do McDonalds! Confesso que pensei em seguir e deixar pra lá mas como vou estar fora por vários dias e esse aparelho não é barato, além de meus dentes entortarem ainda teria que desembolsar uma boa quantia, então dei a volta e enrolei o cabo para o McDonalds. Chegando lá, obviamente ele já havia ido para o lixo então lá fui eu procurar o infeliz em todos os sacos de lixo da lanchonete, mais uma surpresa com a presteza dos Argentinos, mesmo sem terem nada a ver com o meu problema, o segurança da lanchonete e uma das atendentes começaram a vasculhar o lixo junto comigo. Depois de quase uma hora revirando os sacos no meio de restos de comidas e bebidas, encontrei! Agradeci imensamente a ajuda na busca, lavei várias vezes o aparelho, desinfetei com álcool gel, escovei, coloquei o aparelho na boca, abasteci novamente a Bandida e saí correndo.
Após rodar mais uns 100Km, polícia de novo! Vieram com a mesma história do colete mas eu rebati dizendo que estava ciente e que essa lei somente se aplicava a motoqueiros de tele-entrega da Capital Federal. Disseram que iriam me dar uma força e me liberaram. Valeu Jorge!! Segui mantendo a velocidade máxima da autopista de 130Km/h (essa autopista é o que a free-way deveria ser, uma estrada de 3 pistas com asfalto perfeito e sem cobrança de pedágios para motos), eu estava sendo ultrapassado por todos os carros decentes da rodovia até que resolvi seguir o ritmo dos carros, quando fui ultrapassado por um BMW resolvi seguir o tal e quando olho o velocímetro estávamos rodando a 220Km/h! Adorei! Baixávamos a velocidade quando nos aproximávamos de alguma cidade e depois voltávamos ao ritmo, como tive que abastecer antes que o BMW, quando voltava à estrada vendo que alí não havia limites, seguia na mesma tocada.
Quando cheguei a Mar del Plata já eram 19:00 e estava noite, como não conhecia nada da cidade resolvi passar na loja do contato que o Guillermo me deixou, era uma loja grande da Goodyear e alí tive uma experiência que não vou esquecer jamais. Meu contato se chamava Diego e por incrível que pareça, ele já sabia meu nome e veio me receber com todo o carinho, o Guillermo já havia ligado para ele e avisado que eu o procuraria. O cara só faltou me pagar o hotel de tanto que me ajudou, ligou para seus contatos para que procurassem um pneu para a Bandida que já está precisando de sapatos novos, pesquisou na Internet hotéis baratos na cidade, ligou para vários e fez a reserva de um para mim. Conheci nesse momento também o seu Francisco, pai do Diego que também fez de tudo que pôde para me ajudar, espero um dia poder retribuir o que esse pessoal fez por mim e a forma como me trataram! Fui para o hotel, tirei os alforjes e mochila e guardei a bandida na garagem, merecido descanso!